quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Circo da Notícia








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DIREITO À INTIMIDADE
Informar e manter o respeito

Por Carlos Brickmann em 19/1/2010
Durante muitos anos, a imprensa americana publicou fotos do presidente Franklin Roosevelt apenas da cintura para cima. Evitava, assim, chamar a atenção para seus problemas físicos: Roosevelt, paralítico, usava cadeira de rodas.
A imprensa francesa jamais noticiou que o presidente François Mitterrand tinha duas famílias. O fato se tornou publicamente conhecido apenas em seu enterro, quando as duas esposas e os filhos de ambos os relacionamentos lhe prestaram as últimas homenagens. Para os jornalistas franceses, Mitterrand tinha de ser avaliado por sua vida pública, não por seus momentos íntimos.
O presidente Getúlio Vargas teve relacionamentos amorosos que os meios de comunicação ignoraram – por exemplo, com a famosíssima Virginia Lane, "A Vedete do Brasil". O presidente Juscelino Kubitschek teve por longos anos um caso com a elegantíssima Maria Lúcia Pedroso. Nos dois casos, muita gente sabia, mas ninguém publicou. E por um motivo fortíssimo: tirando os envolvidos na história, ninguém tem nada com isso. Excetuando-se os casos em que o amante, ou a amante, interfere na vida pública, intimidade é intimidade e deve ser respeitada.
Neste momento, há quem insinue romances extraconjugais de figuras importantes da República. Não importa que essas notícias saiam em publicações sem importância ou em blogs inexpressivos: o objetivo é jogá-las no ar, mantendo-as em circulação, para que sejam usadas posteriormente, em ocasião adequada.
Independentemente do que pensamos sobre as pessoas envolvidas, isso não é exercício da liberdade de imprensa: é jornalismo marrom, é fofocagem pura e simples, sem qualquer vínculo com o interesse público. Beira a chantagem. E, especialmente, é covarde: as pessoas atingidas não podem reagir à altura, sob pena de divulgar amplamente aquilo que foi publicado de maneira restrita.
Para usar a linguagem do Carnaval, a genitália alheia não é assunto do jornalismo político e econômico, a menos que ultrapasse as fronteiras do privado e invada o espaço público. Arranjar emprego para a amante, ou o namorado, é inaceitável (e, no entanto, isso não apenas acontece como provoca escândalo apenas quando aparece dentro de outro escândalo).
E que ninguém venha dizer que a vida privada de outras pessoas, que sua intimidade sexual, seja um termômetro de seu caráter e de sua capacidade de ocupar cargos públicos. Os reis David e Salomão, que a Bíblia nos aponta como exemplos de vida, jamais escolheram o puritanismo como forma de vida. E quem é que o caro leitor prefere: o casal Roosevelt, cada um com seus relacionamentos próprios, o grande líder britânico Sir Winston Churchill, beberrão e apreciador do belo sexo, ou o ascético Adolf Hitler, que não bebia, que não era dos mais fanáticos por sexo, e que sem dúvida foi homem de uma só mulher?
Chateações
É sempre bom acompanhar de perto os dias de folga das autoridades: caso algo aconteça que exija sua presença, não será necessário procurá-las, nem esperar que alguém informe as novidades, nem correr o risco de saber que as coisas ocorreram debaixo do seu nariz e você não ficou sabendo.
Mas, no caso do presidente Lula, houve um certo exagero. Ficar à distância tentando flagrar momentos é cansativo para o repórter e ruim para a autoridade, que não pode comportar-se com naturalidade. Qualquer coisa pode ser objeto de crítica. Vejamos o caso do isopor, aquela geladeirinha que Lula levava na cabeça. Foi criticadíssimo por isso, onde já se viu um presidente carregar sua geladeirinha na cabeça, como se fosse uma lavadeira com a trouxa de roupa? Mas imaginemos o contrário: algum ajudante de ordens carregando o isopor. Aí o presidente seria criticadíssimo por usar funcionários públicos em serviços pessoais.
Por que não deixar o homem sossegado, ficando por perto apenas para eventualidades?
O papel da imprensa
O governador de Brasília, José Roberto Arruda, foi vaiado no Itamaraty. Ninguém, nenhum político, queria ser fotografado a seu lado. Até aí, tudo bem. O problema é que jornalistas participaram da vaia. É uma confusão total: o jornalista pode pensar o que quiser a respeito de quem quer que seja, mas não pode permitir que suas opiniões interfiram no trabalho de levar os fatos a seus patrões, os consumidores de informação. Imagine um médico que deteste determinada pessoa: nem por isso deve deixar de tratá-la da melhor maneira que lhe for possível.
Este é um mal recorrente. Em 1989, jornalistas chegaram a cercar o carro do então candidato Fernando Collor, na saída de uma TV, em São Paulo, deram socos e bateram com as máquinas na lataria. Seu candidato era Lula – e como se sentirão hoje, sabendo que Collor está entre os grandes aliados de Lula?
As notícias da imprensa
O atento leitor Décio Pedroso escreve a este Observatório mostrando um caso exemplar: no lançamento do Programa Nacional dos Direitos Humanos, que provocaria tantas discussões alguns dias depois, o noticiário esqueceu o programa e se concentrou no new look da ministra Dilma Rousseff, agora sem peruca. A questão das invasões de terras, as ameaças às empresas produtoras de tecnologia, os ataques ao agronegócio, tudo ficou de lado: importante era saber se Sua Excelência usava peruca ou não. A imprensa, diz o leitor, deveria tê-lo informado de que, da próxima vez em que sua fazenda for invadida, ele teria de se reunir com os invasores antes de recorrer à Justiça. Ele procura notícias relevantes, "e não insignificâncias pilosas de quem quer que seja".
O leitor tem toda a razão – e nem mencionou outro fato, de que notícia vende jornal. Quando este colunista dirigia uma redação, sabia que, sempre que havia notícias quentes – cruzeiro novo, tragédia de Caraguatatuba, Plano Collor, internação de Tancredo Neves – a circulação iria crescer. Lembrando o grande publicitário Alex Periscinoto, o que o leitor quer saber é o "what about me": em bom português, "e eu com isso?" O resto é história paralela, que até dá sabor à notícia, mas não pode substituí-la.
O Haiti e o Brasil
Uma história bem interessante, narrada pelo ex-prefeito do Rio, César Maia, relaciona o Haiti e o Brasil:
1. Em 5 de dezembro de 1492, menos de dois meses depois de ter descoberto a América, Cristóvão Colombo chega a uma grande ilha que chama de La Española. É a primeira ocupação das Américas e com desenho urbano espanhol. A população encontrada era estimada em 300 mil indígenas. Em 1697, espanhóis e franceses celebram o Tratado de Ryswick e dividem a ilha ao meio. À França coube a parte onde hoje é o Haiti, onde intensificou o sistema escravista. Em 1750, a parte francesa contava com 310 mil pessoas, sendo 300 mil escravos.
2. O Haiti alcançou, na segunda metade do século 18, índices de produtividade agrícola (café, cana etc.) dos maiores do mundo. A avaliação dos proprietários era de que a escravidão explicava a produtividade. Com isso, a população escrava não parou de crescer, atingindo quase o dobro no final do século 18. A aglomeração de escravos produziu, no último quarto desse século, reações, inicialmente de base religiosa. Sob a liderança do escravo Toussaint-Louverture se iniciou a luta a partir de 1790. Declara a Abolição em 1794 e promulga a Constituição em 1801. É capturado em 1802 e morto na França.
3. Em 1803, sob a liderança do escravo Jean Jacques Dessalines, se inicia a luta pela independência, que derrota os franceses e em 1804 declara a Independência, assumindo o governo como Imperador e nessa condição seus sucessores. É o primeiro país das América Latina a se tornar independente. O temor do exemplo leva a América Hispânica a limitar a entrada de escravos e, após as independências, realizar as suas abolições. Em 1822, o Haiti invade a parte oriental e unifica a Ilha de Santo Domingo. Em 1844, Haiti perde o controle da parte oriental e a República Dominicana se declara independente. Em 1915, o exército dos Estados Unidos ocupa o Haiti e o controla até 1934.
4. Mas o ponto que relaciona Haiti ao Rio é a rebelião de 1794. Os proprietários fugiram. Um deles, Louis François Recesne, grande produtor de café no Haiti, vai para Cuba e em função das disputas – Espanha e França –, segue para os EUA. Quando D. João IV cria no Brasil um programa de incentivos à lavoura, em 1816, Lecesne (com 57 anos) e sua esposa americana Frances Mary vêm para o Brasil e se apresentam. Querem que ele plante trigo. Lecesne lembrou que trigo só em clima temperado.
5. Sem esse apoio e com apoio do embaixador francês, compra 130 hectares na Gávea Pequena, Floresta da Tijuca, Rio. Em menos de um ano tem 60 mil pés de café plantado, o que é a primeira plantação de café em extensão do Brasil. Chamou suas terras de Fazenda São Luís. A casa central da fazenda é onde hoje está a casa da família Magalhães Lins. E a casa de apoio é hoje a casa do prefeito do Rio, a Gávea Pequena. A Fazenda São Luis foi desenhada de cima e está no diário de Maria Graham (Diário de uma viagem ao Brasil).
6. A Fazenda São Luis foi visitada e relatada por Carl von Martius, Rugendas, von Theremin, Príncipe Adalberto da Prússia, Maria Graham... Dois anos depois, o comerciante e médico-militar holandês Charles Alexandre van Mocke comprou as terras ao lado de Lescene e passou a ser o segundo grande produtor com sua Fazenda Nassau. E dessa forma nasceu a grande plantação de café no Brasil e seu caráter exportador. Em 1843 uma praga encerrou o ciclo do café nos altos da Tijuca.
Faltou dizer
Há coisas que só podem acontecer no Brasil. João de Barro, um clássico da música caipira gravado em 1956, foi composto por dois turcos, Muíbo César Cury e Teddy Vieira – Muíbo, filho de árabes, Teddy com os antepassados árabes mais distantes, já mesclado aos Vieiras e aos Azevedos, mas com inequívocos traços mediterrâneos, reforçados pelo clássico bigode da região. Teddy, que morreu há muitos anos num acidente de carro, compôs outros grandes sucessos caipiras, como Menino da Porteira; Muíbo, que morreu outro dia, depois de 56 anos de Rádio Bandeirantes, foi ator, dublador, compositor de músicas de Carnaval e, acima de tudo, um locutor de primeiro time.
E, no entanto, como saiu pouca coisa sobre Muíbo fora das emissoras de rádio! Os jornais ou ignoraram sua morte ou a deram em poucas linhas; as revistas nada publicaram. Em parte, por desconhecimento; em parte, porque os demais meios de comunicação costumam fazer de conta que o rádio não existe.
O público e a imprensa
Um blog visto por alguns milhares de pessoas é divulgado por outros blogs, sai no jornal, entra em alguma revista de informática. Um programa de rádio com centenas de milhares de ouvintes não consegue espaço em lugar nenhum. Os jornais informam quais os jogos de futebol que a TV vai transmitir; mas não contam de jeito nenhum quais os jogos que serão transmitidos pelo rádio. Há dias, a Rádio Inconfidência FM de Belo Horizonte reapresentou entrevista com dona Zilda Arns, com transmissão para todo o país pela internet, e a imprensa escrita nada informou.
Por que? Excelente pergunta – pois não se pode esquecer que o rádio está entre os mais ágeis veículos de comunicação, e em certas ocasiões, como o apagão, se transformou em única fonte utilizável de informações.
Como...
De um grande jornal:
** "Kassab usa carro para visitar áreas alagadas de São Miguel Paulista"
E como é que queriam que o prefeito fosse do centro da cidade a um bairro distante: em lombo de burro? A cavalo? Ou de helicóptero (caso em que a notícia chamaria a atenção para o conforto de que estaria desfrutando o prefeito, enquanto os moradores da região lutam contra os alagamentos).
...é...
De um grande portal noticioso:
** "Filha de Charles Chaplin atua em peça teatral em Paris"
Isso é o que diz o título. Já o texto informa que Victoria Chaplin Thierrée é neta de Charles Chaplin. Pela idade da moça, o texto deve estar certo.
...mesmo?
De um jornal importante, noticiando as Rodas de Samba no SPTV, da Rede Globo:
** "A escola leva 11 integrantes ao estúdio, dá entrevista e canta o samba"
Deve ser uma escola notável. Este colunista, já avançado em anos, jamais teve oportunidade de conhecer uma escola que dê entrevista e cante sambas.
No capricho
Saiu no site de um grande jornal regional, referindo-se ao terremoto no Haiti:
** "Trajédia"
Pois é: assim mesmo, com "j". Hoge em dia faltam a alguns giornalistas o enjenho e a harte.
We are the world
Ainda o presente que recebemos de Moisés Rabinovici, que edita o inovador Diário do Comércio de São Paulo: alguns títulos escolhidos pela pesquisa Fark.
Numa notícia sobre naves espaciais:
** "A nave seguia próximo a 18 vezes a velocidade da luz"
Notável: até este colunista, para quem Física é a mulher do Físico, já conseguiu aprender que nada pode ser mais rápido no Universo do que a luz.
Comentário sobre maus-tratos a animais:
** "Ativistas bolivianos dos direitos dos animais obtêm sucesso na proibição de circos em usar animais, mas agora eles têm de descobrir o que fazer com 22 leões inúteis"
Trio fantástico:
** "Uma pessoa morta, seis feridas em explosão de fábrica de tortas. Estampido foi ouvido num raio de 3.14159265 milhas"
** "Avião se choca num istmo na Flórida, nenhum piloto encontrado". Bem, aí está o problema"
** "Fogo destrói acampamento de sem-teto, deixando muitos..." bem, não poderia ser pior, realmente.
E eu com isso?
O noticiário da semana é altamente informativo e instrutivo:
** "Descubra por que é difícil contentar as mulheres"
Como diria Oscar Wilde, é fácil analisar os homens. "Quanto às mulheres, limitemo-nos a amá-las." Embora ele também não se dedicasse a isso.
** "Novo estudo afirma que é saudável ter nádegas, coxas e quadril grandes"
** "Desenhos pubianos deixam você na moda"
** "Isis Valverde vai ao supermercado com shorts curtinho"
** "Cachorro recarrega bateria de celular"
** "Penélope Cruz pode estar mais perto do altar"
** "Susan Boyle surta em sala VIP de aeroporto"
** "Freira vai à praia em Copacabana"
O grande título
Nada muito especial. Comecemos com o clássico título que não coube:
** "Dois armadores disputam preliminar do"
Temos também um título, digamos, exótico:
** "Gato é convocado para júri nos Estados Unidos"
Nada a estranhar: este colunista conhece uma série de pessoas que conversam com gatos, cachorros e cavalos e não só estão convencidas de que eles entendem tudo como de que sabem direitinho o que os bichos responderam.
E temos um título bem-feitinho, sem nada de especial, a não ser a cena que se imagina que aconteceu:
** "Policial é pego transando na torre da igreja durante missa de Ano-Novo"
É aquilo que se poderia chamar de boas entradas.

ENTREVISTA /José Luiz Sóter








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JOSÉ LUIZ NASCIMENTO SÓTER
"O Brasil tomou gosto pelo debate sobre as comunicações"

Por Candice Cresqui em 19/1/2010

Reproduzido e-Fórum nº 285, de 16/1/2010, boletim semanal de divulgação do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC)

As conquistas para a radiodifusão comunitária, historicamente atacada pela grande mídia, exemplificam o expressivo avanço na luta por uma comunicação mais democrática representado pela Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). Para o coordenador-geral da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço), José Luiz Nascimento Sóter, a ampla discussão proporcionada pela Confecom inaugurou um novo momento no país. "O Brasil tomou gosto pelo debate sobre as comunicações", afirma o dirigente.

Entre os indicativos de políticas públicas para o setor acatados na Confecom, Sóter destaca a criação da Subsecretaria de Radiodifusão Comunitária no Ministério das Comunicações, com um conselho de acompanhamento dos processos de outorgas. Em entrevista concedida por e-mail ao e-Fórum, o coordenador, que é também secretário-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), avalia os resultados do encontro nacional, realizado entre os dias 14 e 17 de dezembro em Brasília, traça os desafios pós-Confecom e discorre sobre as dificuldades enfrentadas pelas emissoras comunitárias. Confira a seguir.

***

O que a Conferência representou para a democratização da comunicação no Brasil?

José Luiz Nascimento Sóter – Democracia é um termo que traz dentro de si as palavras luta e debates de idéias. Nesse sentido, a Conferência foi um marco para a democratização das comunicações no Brasil, pois propiciou um amplo debate em todas as frentes de luta por uma comunicação mais democrática, com a participação de um espectro muito maior da sociedade brasileira do que o representado pelas categorias envolvidas diretamente com o setor. E isso é um caminho irreversível, o Brasil tomou gosto pelo debate sobre as comunicações.

Quais foram os principais avanços trazidos pela Conferência para o setor da radiodifusão comunitária?

J.L.N.S. – Coloco a radiodifusão comunitária como imprescindível para o debate sobre o aperfeiçoamento e desenvolvimento das comunicações no País. A totalidade das propostas da Abraço aprovadas, além de uma carta compromisso dos três ministérios responsáveis na organização da Conferência ( Ministério das Comunicações, Secretaria Geral de Governo e Secretaria de Comunicação Social) em apoiar a implementação das propostas históricas do movimento, demonstram isso (confira). Aprovamos medidas importantes como o aumento de canais, a liberação de publicidade institucional púbica para as radcom, a criação da Subsecretaria de Radiodifusão Comunitária dentro do Ministério das Comunicações, com um conselho de acompanhamento dos processos, o aumento da potência dos transmissores de acordo com as necessidades da localidade, entre outras (veja as propostas aprovadas aqui).

Como a Abraço avalia o processo de construção da Conferência e o diálogo entre os três setores representados nela (sociedade civil, sociedade civil empresarial e poder público)?

J.L.N.S. – Acreditamos que foram fundamentais a mobilização do FNDC por uma conferência convocada pelo Executivo, ampla e tripartite e as iniciativas tomadas pela coordenação do Fórum envolvendo o governo e os empresários. Não foi um diálogo fácil durante o processo de organização da Confecom. As reuniões sempre foram tensas e no limiar da ruptura, o que não impediu a construção de uma ponte entre os três setores e o sucesso do encontro.

A cobertura da mídia sobre a Confecom pautou-se pelo silêncio. O que isso representa?

J.L.N.S. – Isso já era esperado. As empresas que se retiraram o fizeram por pura arrogância e prepotência frente ao debate democrático. O barulho das ruas, demonstrado pela representatividade de todo o país na Confecom, incomodou e muito o sistema comercial. A imprensa golpista sente-se ameaçada pelas novas linguagens comunicacionais e quer segurar o "osso" com todas as forças de suas mandíbulas, por isso certamente continuará desqualificando os resultados da Conferência.

Quais são os desafios pós-Conferência?

J.L.N.S. – São dois, pelo menos: manter a mobilização para garantir a implementação do que foi aprovado e começar a mobilização para a II Confecom, em 2011. Nós, da Abraço, temos inúmeras propostas que são de exclusiva responsabilidade do Executivo, portanto, iniciaremos o ano político com essa agenda.

A comunicação brasileira reclama um novo marco regulatório. Quais devem ser as suas bases?

J.L.N.S. – As novas tecnologias criaram uma nova possibilidade de pensar e fazer comunicação. Por isso, o novo marco regulatório deve contemplar os avanços tecnológicos e democráticos, com unidade e abrangência de todos os segmentos da comunicação.

Entre as propostas da Abraço aprovadas na Conferência, o senhor citou a criação da Subsecretaria de Radiodifusão Comunitária para agilizar as concessões. Quais são as dificuldades enfrentadas pelas emissoras comunitárias para o recebimento de outorgas?

J.L.N.S. – A criação de uma subsecretaria de radiodifusão comunitária no âmbito do Minicom tem o objetivo de tentar sanar as dificuldades que as comunidades têm para acessar os serviços do órgão. Por isso propusemos também a criação de representações do Ministério nos estados e um conselho de acompanhamento dos processos para evitar o tráfico de influência e a procrastinação dos processos. As representações estaduais serão responsáveis pelo recebimento do pedido de outorga e a definição das diligências necessárias para a adequação das emissoras aos procedimentos exigidos. Outra questão preocupante é a falta de dispositivo que garanta à comunidade o tempo que se dará entre o requerimento e a emissão da autorização temporária. Precisamos definir que a partir de determinado prazo (seis meses) o Ministério seja obrigado a emitir uma autorização provisória, que será efetivada ou não no término do processo. Solucionadas essas questões, grande parte dos nossos problemas estará resolvida.

Recentemente a rádio comunitária Criativa FM, da cidade baiana de Jaguarari, sofreu forte repressão por parte da Anatel. Como a Abraço vê esse tipo de ação?

J.L.N.S. – Essa atuação da Anatel foi sintomática. A Abraço encaminhou ao Minicom a denúncia de que uma emissora comercial estava se utilizando de outros transmissores que não os seus simplesmente para evitar que a população tivesse acesso à programação da rádio. O fiscal da Agência, entretanto, se investiu de poder policial e apreendeu tudo que tinha no estúdio da emissora comunitária e ainda deixou escapar que "a Anatel já conhecia a Abraço e que a mesma era apenas uma quadrilha". Portanto, a Agência está a serviço da mídia mercantilista e não disfarça esse conluio e essa subordinação. A cada ação da Abraço, invariavelmente tem uma reação dos empresários da comunicação por meio da repressão. Por isso, defendemos a inclusão na próxima composição do Conselho Consultivo da Anatel de alguém da sociedade civil que compreenda a luta das rádios comunitárias e leve para dentro daquele órgão o respeito que elas merecem, considerando sua a importância na circulação de informações dentro das comunidades.

Tramita na Câmara dos Deputados um Projeto de Lei (5826/09) que possibilita às rádios comunitárias receberem um certificado de utilidade pública. Que benefícios isso trará para o setor?

J.L.N.S. – Todas as medidas que beneficiam e reconhecem a importância do serviço de radiodifusão comunitária são bem vistas pela Abraço. Já existem várias emissoras comunitárias detentoras da declaração de utilidade pública. Essa certificação traz benefícios como a isenção no imposto de renda para as doações feitas às rádios e maior respeito à emissora para a veiculação de apoios culturais e publicidade pública.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Notícias de Rolim de Moura (R)

CAMPEONATO MUNICIPAL DE FUTEBOL CONSAGRA GUARANI CAMPEÃO.


No ultimo domingo (03), o Estádio Ângelo Cassol – o Cassolão, sediou a final do Campeonato Municipal de Futebol na Categoria Titular e Aspirante. A disputa entre as equipes 2 de abril, da Linha 196, lado norte, e Guarani, da Linha 188, lado norte, foi acirrada, sendo definido nos pênaltis, fechando o placar em 3X1 para o Guarani.
O Campeonato Municipal iniciou no dia 18 de outubro, onde contou com a participação de 48 equipes inscritas, sendo 24 na Categoria Titular e outras 24 na Aspirante. Equipes da Zona Urbana e Rural participaram das competições.
A idéia de resgatar o campeonato partiu do vereador Rodnei Paes, sendo prontamente acatada pelo Poder Executivo Municipal, por meio da Superintendência de Esporte. Sem interesse financeiro, mas, como forma de entretenimento e lazer, as inscrições foram gratuitas, o único critério exigido era de que as equipes fossem do município.
O superintendente de Esporte, Claudio Roberto – o Claudinho, comenta sobre esta iniciativa. “Esta idéia realmente deu certo, pois conseguimos proporcionar momentos agradáveis de descontração para os amantes do esporte do município. Através desta experiência, com certeza repetiremos a dose neste ano com um novo campeonato”, declarou.
Já o vereador Rodnei, destacou a importância de valorizar o esporte. “Sempre fui um grande incentivador do Esporte em nosso município, acredito que temos muitos talentos a serem descobertos, sendo assim, tive a idéia de promovermos um Campeonato Municipal, o melhor de tudo é que realmente deu certo”.
Flexível à ações que beneficiem a população de Rolim de Moura, o prefeito Tião Serraia conta como tudo teve início. “O vereador Rodnei Paes é um grande parceiro da nossa Administração, achei que seria uma ótima idéia realizar o campeonato, pois poderíamos levar a população um espetáculo pelo qual o brasileiro tem uma grande paixão – o Futebol”, contando ainda sobre os investimentos realizados em 2009 neste setor; “a prova do nosso incentivo ao esporte são as quadras que construímos, bem como outras que reformamos no ano que passou, levando mais comodidade aos nossos atletas”, finalizou.
Na final, disputaram na Categoria Aspirante, Juventus e União (Linha 172, lado Sul), o time da Zona Urbana – Juventus, levou a melhor, goleando União por 4 X 1 , conquistando o título. Já na categoria Titular, Guarani levou a melhor; na disputa contra o 2 de Abril, o jogo terminou num eletrizante empate, 1X1, porém nos pênaltis o placar encerrou em 3X1 para o time da Linha 188, sendo o dono do Título em 2009.
- PREMIAÇÃO
Como congratulação aos Títulos, a Prefeitura de Rolim de Moura presenteou os ganhadores com troféu e prêmio em Dinheiro. O artilheiro e o goleiro menos vazado de cada categoria do Campeonato também foram premiados com troféus.

CATEGORIA TITULAR
1º Lugar – R$ 2.000,00
2º Lugar – R$ 1.000,00
3º Lugar – R$ 600,00
4º Lugar – R$ 400,00

CATEGORIA ASPIRANTE
1º Lugar – R$ 1.000,00
2º Lugar – R$ 500,00
3º Lugar – R$ 300,00.







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O Brasil já tem novo fabricante de Aviões Agrícolas e de Treinamento

Acaba de ser fundada a Airtechs, empresa no interior de São Paulo que desenvolveu o seu avião. Trata-se do Guará G200, um monomotor acrobático de dois lugares em tanden, ideal para o treinamento de pilotos militares e civis. Este avião tem despertado o interesse de vários países da América Latina, por ser uma aeronave de baixo custo e ser oferecido com duas opções de motor, o americano Lycoming, de 200 HP, a gasolina, ou com o motor francês SMA, de 230 HP, movido a querosene Jet Á1, que utiliza ciclo diesel.

Este projeto deslanchou pela ousadia de um apaixonado pela aviação: Jesus Rodrigues, que desde jovem tinha um sonho, ser piloto de avião e aos 21 anos conquistou o brevê no aeroclube de São Paulo. Após isso comprou seu primeiro avião e trabalhou com táxi aéreo na região amazônica. Lá descobriu um nicho de mercado ao comprar e reformar aviões. Numa dessas atividades, conheceu e associou-se ao Engenheiro Carlos Gonçalves, um expert em modelos de treinamento, que já possuía experiência no projeto e fabricação de aeronaves, como o Uirapuru e o Tangará. A jornada não foi fácil, foram anos de trabalhos intensos, fins de semana dedicadas ao projeto e montagem do protótipo, noites sem dormir dentro do hangar X10 do CTA em São José dos Campos. Coincidentemente foi nesse mesmo hangar que nasceu o Bandeirante, o primeiro avião da Embraer. Jesus Rodrigues fala com gratidão da ajuda recebida do Engenheiro Ozires Silva, na época presidente da Embraer e do Brigadeiro Taveiras, comandante do CTA. Ajuda essas de grande importância, pois levaram o Guará G200 ao seu primeiro vôo, a partir do X-10.
Para aqueles que acreditam que fabricar um avião no Brasil é um plano ambicioso, a Airtechs avança com força na área da Aviação Agrícola. Em atendimento a crescente demanda no país foram desenvolvidos o Guará G300 e o Guará G400. Aeronaves estas que estarão disputando o mercado já em 2010 e 2011.
O Guará G300 é destinado à pulverização agrícola com capacidade de 600 quilos. Esta aeronave foi projetada a partir do Guará G200 e possui estrutura totalmente metálica, com grande poder de manobra, destinada a propriedades de tamanho médio. Já o Guará G400 tem capacidade de 1.000 quilos. Seu projeto é inovador no mercado. O tanque de defensivo é posicionado atrás do piloto e desenvolvido de forma garantir sua segurança. Sua estrutura é em material composto e destinado a grandes propriedades.
Rodrigues é enfático ao falar sobre segurança, para ele é o item mais importante na aviação, por isso a cabine do Guará G300 e G400 foram projetadas e constituídas de tal forma a preservar a integridade do piloto, tal como nos carros de corrida atuais, o cockpit é uma célula de segurança.
A Airtechs aponta as vantagens na aplicação da Aviação Agrícola.
Rapidez: é a característica mais evidente para a aplicação agrícola, pois cobre grandes áreas em curto espaço de tempo, sendo assim a maior responsável pela eficácia no tratamento de doenças e combate a pragas.
Uniformidade da aplicação: Como o avião aplica em velocidade praticamente constante, e não sofre influência das condições do terreno como umidade, vales e montanhas , a uniformidade de distribuição é excelente.
Independência das condições do terreno: O avião não necessita aguardar que o solo seque, após um período de chuva, pois não depende dele para a aplicação. Assim que cessam as chuvas pode ser iniciada a pulverização.
Não provoca danos à lavoura: A pulverização aérea não causa perdas por danos diretos à plantação como amassamento ou compactação do solo. Alguns dados indicam que a redução de colheita devida a danos ocasionados pelo uso de equipamentos terrestres pode chegar a 5%, ou 2 sacas de soja por hectare.
O nome Guará foi emprestado de uma das mais belas aves. Essa ave povoava todo o litoral da América do Sul e de algumas localidades da América Central. Possui a cor vermelha, pois habita os mangues e tem no caranguejo e siri seu principal alimento. Sua presença era muito intensa, a ponto do Padre José de Anchieta em 1560 dar o nome Guará Parim a um povoado do Espírito Santo, que significa ninhos de Guará, hoje o nome oficial desta cidade é Guarapari. A ave Guará esteve a beira da extinção, a beleza das suas penas causava muito cobiça, pois era usada como adornos, mas hoje já está em recuperação e pode ser vista com certa freqüência no litoral de São Paulo e outros estados. A revoada de Guarás contrasta o vermelho forte da suas penugens com o azul do céu e é tão linda, que quem vê jamais esquece.
Texto de: Eng. Reinaldo Ribeiro da Silva

reinaldo.silva@plasmatec.com.br

(12) 3909-1300







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Pulseiras do sexo

Vocês podem achar que é uma besteira, mais para os pedófilos é apenas mais uma vitima!

À primeira vista, uma colorida pulseira de plástico nos pulsos de crianças parece inocente.
Mas na realidade elas são um código para as suas experiências sexuais, onde cada cor significa um grau de intimidade, desde um abraço até ao sexo propriamente dito.
Poderia confundir-se com mais uma daquelas modas que pega, uma vez que é usado por milhares em várias escolas primárias e preparatórias no Reino Unido e custam apenas uns centavos em qualquer banca ao virar da esquina.
Mas as diferentes cores das ditas pulseiras de plástico – preto, azul, vermelho, cor-de-rosa, roxo, laranja, amarelo, verde e dourado – mostra até que ponto os jovens estão dispostos a ir, se proporcionar, desde dar um beijo até fazer sexo.
Andam uns atrás dos outros nos recreios das escolas, na tentativa de rebentar uma das pulseiras. Quem a usava terá de “oferecer” o ato físico a que corresponde à cor. É o "último grito” comportamento promíscuo que sugere, cada vez mais, que a inocência da infância pertence a um passado distante.
Quase tão chocante como as "festas arco-íris” – encontros com muito álcool e droga à mistura, em que as meninas usam batons de cores diferentes para deixar a “marca” nos rapazes após o sexo oral -, as “pulseiras do sexo”, que custam apenas um euro (um pacote com várias), têm um custo maior que foge ao alcance de muitos pais.
Significado das cores:
» Amarela é a melhor porque significa das um abraço no rapaz;
» Laranja - significa uma “dentadinha do amor”;
» Roxa – já dá direito a um beijo com língua;
» Cor-de-rosa – a menina tem de lhe mostrar o peito;
» Vermelha – tem de lhe fazer uma lap dance;
» Azul – fazer sexo oral praticado pela menina;
» Verdes – são as dos chupões no pescoço;
» Preta – significa fazer sexo com o rapaz que arrebentar a pulseira;
» Dourada – fazer todos citados acima;
Símbolo de respeito
Como quase em tudo nestas idades, existe um estigma por detrás das pulseiras: quem não as usar é excluído e quem usar as cores preto e dourado é mais respeitado. “No meu grupo da escola, a líder – que serve de exemplo para todos – só usa pulseiras pretas e douradas. Todos os rapazes da minha turma usam pretas e se uma rapariga também usa, eles gostam todos dela”, conta a criança de 12 anos.
Shannel Johnson, de 32 anos, descobriu através da filha, de oito, o significado das pulseiras e admitiu ao The Sun que nunca suspeitaria do código subjacente. Quando a filha Harleigh lhe disse que se alguma rebentasse, tinha de fazer um “bebe com um rapaz”, Shannel teve uma conversa com a filha, chamando-a à realidade.
Esta mãe, preocupada, começou a pesquisar na Internet e descobriu sites onde se vendiam as pulseiras, grupos no Facebook e fóruns de menores a discutir quem usava que cores. Enquanto alguns pais já confiscaram as pulseiras, muitos continuam na ignorância do significado destes acessórios aparentemente da moda.

Muita atenção, estas pulseiras já chegaram ao Brasil!







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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

ASSASSINATOS DE REPUTAÇÃO

As autoridades abusam, você paga

Por Carlos Brickmann em 12/10/2009


Houve o caso da Escola Base, um clássico de abusos das autoridades, com a feroz colaboração da imprensa; e, quase tão famoso, o caso do Bar Bodega, que agora chega a uma conclusão, com a condenação do Estado a indenizar o acusado preso injustamente, pela acusação fabricada de assalto e assassínio.

O caso ocorreu em 1996. Foram 13 anos de luta judicial, portanto. O Bar Bodega, em São Paulo, foi assaltado. Dois clientes foram mortos. Alguns suspeitos confessaram, depois de "habilmente interrogados"; e ficaram presos preventivamente até que os verdadeiros assaltantes e assassinos foram encontrados.

Um dos acusados, que além de ficar preso perdeu o emprego, moveu processo contra o Estado, por prisão indevida. Embora a prisão preventiva tivesse sido decretada pela Justiça, o Supremo Tribunal Federal decidiu que há "responsabilidade civil objetiva da entidade estatal". O voto do ministro Celso de Mello está aqui.

O caso é importante: pode colocar um freio no hábito de punir o cidadão, antes que qualquer tribunal se manifeste, com o espetáculo da detenção, devidamente documentado pela TV, mais a privação da liberdade por um longo período, com as penas acessórias, sempre impostas à revelia dos processos judiciais legais, de prejuízos materiais elevados e destruição de reputação. Importante: embora, no caso do Bar Bodega, tenha havido denúncias de tortura, não houve como comprová-las. A obrigação de indenizar foi decidida pela prisão do inocente, não por eventuais torturas que tenha sofrido.

É fato, também, que as irregularidades foram cometidas por agentes do Estado, enquanto a conta cairá nas costas do contribuinte – nas suas costas, caro leitor, caro colega. É uma distorção que precisa ser corrigida, para que a conta recaia em quem cometeu os abusos, e não apenas sobre quem paga seus salários. Outra distorção que precisa ser corrigida é a leniência com que se observa, nesses casos, o papel dos meios de comunicação: quem colabora com os abusos deve também responder por isso.



A lembrar

É definida, em lei, a duração máxima da prisão a que um suspeito pode ser submetido. Esta duração vem sendo sistematicamente ignorada. Os presos podem ser esquecidos por muito tempo sem julgamento – e isso é tão nocivo, para o correto funcionamento da sociedade, quanto assassinos confessos e condenados que ficam em liberdade.



Kafka é aqui

Nesse tipo de caso que o Supremo Tribunal Federal acaba de condenar, a passividade da imprensa é espantosa: a defesa padrão, quando se comprova que errou feio, sempre contra os inocentes, é dizer que apenas transcreveu o que disseram as autoridades. Em resumo, confessam que erraram por confiar nas autoridades, quando sua obrigação é desconfiar sempre.

Há pouco tempo, no Rio Grande do Sul, o Ministério Público Federal concedeu entrevista coletiva para comunicar que havia denunciado a governadora do estado, deputados federais e deputados estaduais por improbidade administrativa. Entretanto, não informou quais eram as acusações, alegando "segredo de Justiça". O segredo de Justiça existe, está na lei; só que se refere a casos de segurança nacional ou que envolva direito de família, principalmente nos casos de proteção a menores. E processar alguém sem que se diga o motivo rendeu um livro famoso, de Franz Kafka: chama-seO Processo. Hoje,O Processo virou coisa comum. A imprensa aceita, divulga e bajula os acusadores. E não mostrou sequer o ridículo de uma entrevista coletiva cujo objetivo era negar informações.



Ameaça privada

A viúva de um dos passageiros do Boeing da Gol que caiu após o choque com um Legacy tripulado por dois americanos entrou com um processo contra Joe Sharkey, o jornalista que estava a bordo do jatinho e que é uma das principais testemunhas do acidente. Estranhíssimo: Sharkey é tão vítima do choque aéreo, embora tenha sobrevivido a ele, quanto o marido da senhora que o processa. Era passageiro, não pilotava o avião, não fazia parte da tripulação. Só há uma explicação para o processo: a antiga mania de culpar os porta-vozes pelas más notícias que trazem.

E, cá entre nós, acusar Sharkey de atentar contra a honra do Brasil por ter supostamente dito (ele nega) que somos tupiniquins e atrasados é de doer. Joelmir Beting, sobre cuja ligação com o Brasil não pode pairar a menor dúvida, é um dos que mais se referem às coisas brasileiras como tupiniquins. A candidata Dilma Rousseff também usou a expressão outro dia, para se referir a alguma manifestação de atraso. E quem disse que chamar os brasileiros pelo nome de uma de suas famílias indígenas é ofensivo? No caso, parece mais é preconceito.



Ameaça pública

Na Argentina, quem ameaça a imprensa de que não gosta é a presidente Cristina Kirchner. Pressiona o grupo Clarín, que lhe faz oposição; ameaça estatizar a fábrica de papel de imprensa, numa ameaça de sufocamento dos adversários. Mau sinal: mostra que a situação política, ou econômica, ou político-econômica, vai mal. É nessas horas que os governos costumam voltar-se contra os meios de comunicação, apontados como causadores das más notícias que apenas divulgam.



Ora, bolas!

Não é fácil encontrar um colunista como ele: nos seus tempos de jornal, passeou entre os concorrentesDiário da Noite eÚltima Hora, e sempre carregou junto os leitores de sua coluna humorística "Ora, Bolas!" Também não é fácil encontrar um publicitário como ele: foi quem criou uma série famosa, na Almap, para a cerveja Antarctica, "nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?" No marketing político, foi também um homem de êxito, e seu livroComo vencer eleições usando rádio e TV se transformou em referência no ramo. Sérgio Andrade, o Arapuã, morreu há dias, aos 81 anos.

"Ora, Bolas!" ajudou a celebrizar o presidente da Federação Paulista de Futebol, João Mendonça Falcão – aquele que anunciou o jogo do Brasil contra os belgicanos. As piadas de Arapuã sobre Falcão foram usadas, mais tarde, trocando-se apenas o personagem: saiu Falcão, entrou Vicente "quem está na chuva é pra se queimar" Matheus. Falcão podia não ser lá muito alfabetizado, mas era espertíssimo: tanto assim que, em vez de sentir-se ridicularizado pelas piadas de Arapuã, sentiu-se honrado, e encarnou o personagem. Jamais brigou com o colunista. Arapuã escreveu nos jornais enquanto a ditadura ainda não se consolidara; depois, quando seu humor de esquerda passou a ser perseguido, mudou de ramo. Para ele não houve problema: foi um vitorioso por onde passou. Mas nós, leitores, perdemos muito.



Modernidade

O Kindle, aparelho eletrônico de leitura, passa a ser vendido no Brasil pela Amazon – eO Globo lança simultaneamente sua edição digital própria para o Kindle (como diz o anúncio,O Globo pretende estar muito além do papel). Nos Estados Unidos, já há 200 mil e-books próprios para o Kindle, acessíveis por uma rede sem fio. Em português, por enquanto, há quase nada. O Kindle vale pelo jornal, por outros jornais que o adotarem e pela aposta no futuro; e é utilíssimo, neste momento, para quem lê inglês com facilidade. O Kindle está sendo posto à venda em cem países.



Modismo

Já são 179 os parlamentares federais que aderiram ao Twitter – um aumento de 142% em quatro meses. Agora é possível saber que Sua Excelência Fulano de Tal está chegando ao Congresso, ou preparando um discurso, ou almoçando, ou ouvindo o senador Eduardo Suplicy cantar algumstandard de Bob Dylan. É pelo Twitter que sabemos que o governador José Serra diz que gosta dos Beatles.

O número de parlamentares que usam o Twitter cresce explosivamente. E, como diria o poeta, "Para que? Para nada".



Como...

Da edição online de um jornal importante:

** "Sapatos de Imelda Marcos escapa de enchente nas Filipinas"

Assim mesmo: sujeito no plural, predicado no singular. E como é que os sapatos fizeram para escapar sem que ninguém os calçasse?



...é...

Da mesma edição, sobre o mesmo assunto, segue-se o texto:

** "Uma parte da famosa coleção de sapatos da ex-primeira dama das Filipinas Imelda Marcos conseguiu resistir às recentes enchentes que atingiram o país (...)"

Afinal de contas, os sapatos escaparam ou resistiram?



...mesmo?

De um grande portal noticioso:

** "Rio Tietê vai ter redes contra piranhas no interior"

Na foto, duas moças tomando banho num rio.



E eu com isso?

Papel aceita tudo, como garante uma velha definição de jornalismo. E a tela, então? Sem necessidade de gastar papel, que é caro, pode-se escrever à vontade:

** "Kate Hudson palita os dentes em jogo do New York Yankees"

** "Luana Piovani boceja em aeroporto"

** "Britney Spears compra um periquito"

** "Humberto Martins toma um lanche no aeroporto do Rio de Janeiro"

** "Sem dinheiro para comprar zebra, zoo pinta burro"

** "Caminhão atropela casa no RS"

** "Cantor Daniel namora e depois voa de asa delta"

** "Penélope Cruz circula com suposto anel de noivado"

Que será um "suposto anel de noivado"?



O grande título

Este não pode faltar: o título que não coube e entrou assim mesmo. E até ganhou um certo duplo sentido.

** "Frasco `escandaloso´ pisca e emite som para lembrar de tomar"

Há questões armamentistas e, ao mesmo tempo, políticas, mas sempre com um toque meio esquisito:

** "Dassault é privada e definirá se vai transferir tecnologia, diz Jobim"

Que maneira de se referir a uma possível parceira!

O melhor título da semana é doméstico:

** "Márcio Garcia fica todo orgulhoso com exibição de seu curta"

Este colunista é do tempo em que o contrário é que seria verdade.











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NO LLORES POR MI, ARGENTINA...

Kirchners & Chávez: diferenças e semelhanças na relação com a mídia

Por Alberto Dines em 12/10/2009


Convém distinguir generalizações são perigosas: o comportamento do casal Kirchner no tocante à mídia e à liberdade de expressão difere totalmente das opções adotadas pelo venezuelano Hugo Chávez.

A política de intimidação pode assemelhar-se; o modo de acionar os respectivos rolos compressores é diferenciado. Cristina e Nestor Kirchner são políticos experimentados, conservam inequívocos traços populistas e caudilhescos do inspirador do seu partido, Juan Perón, porém mantêm um respeito, ainda que difuso, pelos procedimentos democráticos. Chávez já foi de direita, agora é de esquerda, porém antes de tudo é um militar com ostensivos pendores para a truculência e nenhuma vocação para a negociação política ou para os rituais dos regimes representativos.

Convém acrescentar que no grupo de assessores mais próximos dos Kirchners estão alguns veteranos e brilhantes jornalistas portenhos, com um passado claramente progressista e que jamais poderiam ser acusados de sucumbir às tentações totalitárias.

A nova Lei do Audiovisual foi aprovada na madrugada de sábado com folgada margem pelo Senado argentino. O diário espanhol El País (um dos melhores do mundo, com larga circulação na Argentina) denunciou a estratégia de subornos empregada pelo governo para quebrar a oposição (sábado, 10/10, p.10). Provavelmente está certo, mas a tramitação da lei obedeceu às normas democráticas: foi aprovada pela Câmara e, no Senado, os debates estenderam-se ao longo de 16 horas. Em nenhuma das casas legislativas se produziram alterações nos 166 artigos da proposta original. Nenhum foi vetado – mesmo os mais draconianos e arbitrários.

Autoridade fiscalizadora

É preciso levar em conta que o atual Congresso será substituído em dezembro (como resultado das eleições de junho) por outro claramente anti-Kirchner, o que certamente produzirá regulamentações mais brandas e atenuadoras. Isto sem falar na anunciada batalha judicial através da qual os grupos de comunicação prejudicados – sobretudo o poderoso Clarín e o Uno – tentarão reverter itens mais abusivos.

O mais autocrático, o Artigo 161, dificilmente será mantido ou simplesmente será ignorado, porque foi contestado até por próceres peronistas. O prazo de um ano para que as empresas se adaptem à desconcentração pode ser catastrófico e provocar demissões em massa de jornalistas e técnicos.

Um dado que não pode ser desprezado é que o novo estatuto, pelo menos na aparência, não trata de conteúdo nem visa a controlar a liberdade de expressão. O objetivo é nitidamente desconcentrador. Se os meios de comunicação se assumem fundamentalmente como uma indústria, esta indústria deve ser regulada.

Uma Autoridade fiscalizará a execução da nova lei (tal como na União Européia e nos EUA com a FCC, Federal Communications Comission). Na versão argentina, a composição desta Autoridade favorece claramente o governo: dos seus sete membros, dois são indicados pelo Executivo, dois pelo Conselho Federal de Comunicação (cujos membros são escolhidos pelo governo) e os outros três são apontados pelo Legislativo.

Tratar com a devida eqüidistância

A divisão tripartite dos meios de comunicação (um terço para a iniciativa privada, outro para o governo e o terceiro para a sociedade civil) também é teoricamente desconcentradora, mas na prática pode resultar numa arrumação "chapa-branca", já que os sindicatos podem ser facilmente cooptados pelo oficialismo, antiga tradição peronista. A inclusão de entidades religiosas no terço da sociedade civil deve ser vista como concessão à poderosa igreja católica, extremamente preocupada com a avassaladora invasão das seitas evangélicas brasileiras em canais por assinatura.

As redações dos grandes jornais brasileiros finalmente voltaram a funcionar em horário normal no sábado (10/10) e assim as edições de domingo conseguiram oferecer aquele mínimo de atualidade que se espera dos diários. Embora nossa mídia não esconda sua ojeriza a qualquer medida reguladora, as manchetes podem ser classificadas entre "bem comportadas" a "ligeiramente sobressaltadas".

Globo e Folha ofereceram manchetes objetivas, praticamente iguais ("Senado argentino aprova Lei de Audiovisual" e "Congresso aprova lei de mídia de Cristina"). A do Estadão contrasta com a serenidade do texto ("Kirchners vencem no Senado e aumentam o poder sobre a mídia") [leia aqui e aqui].

Esta é uma "pauta" que a mídia brasileira não pode abandonar e tem a obrigação de tratar com a devida equidistância. A Argentina é logo ali e qualquer tentativa de manipulação provocaria justificadas reações e comprometeria o alto nível do time de correspondentes sediados em Buenos Aires.

terça-feira, 4 de agosto de 2009



Verbo Solto
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Uma pergunta para a imprensa: e daí?
Postado por Luiz Weis em 3/8/2009 às 9:09:08 PM



Se a imprensa fosse uma forma de medicina, a sua especialidade seriam crises agudas e não doenças crônicas.

Notícia, em sentido estrito, é o acontecimento que irrompe, não a situação conhecida que prossegue – embora raramente sejam claras as fronteiras entre o novo e o velho.

Quando apresenta as conexões de uma coisa com a outra, o jornalismo vai além de sua função primária de dar as últimas. Nessas ocasiões, se distingue como fonte de transmissão de conhecimentos e não apenas de informações pontuais, singulares.

A sua dificuldade hoje em dia é conciliar a função de pôr os fatos em perspectiva, em histórias mais elaboradas e mais extensas, com um público cuja capacidade de concentração pode ser medida, no limite, pela consagração da brevidade do Twitter, em seus já célebres 140 caracteres por mensagem.

Muita gente critica a imprensa pela sua superficialidade, mas na hora do vamos ler a maioria prefere mesmo dar uma passada de olhos nas páginas impressas, detendo-se aqui e ali para dar uma bicada no noticiário. Disso a internet dá conta perfeitamente bem.

Se os jornais entregarem os pontos, tornando-se ainda mais superficiais, aí sim se cumprirá – por si própria – a profecia da sua irrelevância, quando não do seu desaparecimento.

O oposto da superficialidade, em todo caso, não é a pretensão de explicar o mundo a cada edição, nem transformar matérias em monografias, mas dar um passo adiante na busca do “e daí?” dos fatos ostensivos.

O que se quer dizer com isso está na Folha da segunda-feira, 3. Na primeira página do caderno “Dinheiro”, o jornal publica uma arrumada reportagem sobre o crescimento do mercado de automóveis, mais intenso em outras regiões do país do que no que no Estado de São Paulo.

Pensando bem, era de esperar. São Paulo só perde para o Distrito Federal em matéria de habitantes por carro (5,1). Em Pernambuco, por exemplo, a relação é de 17,9. Na Bahia, 23,9. À medida que a renda nacional começa a se desconcentrar, é lógico que as vendas de autos cresçam proporcionalmente mais nos Estados onde é menor a parcela motorizada da população.

O jornal poderia ter se limitado a contar essa história, com o caso “humano” de praxe e os números que a resumem – nos últimos anos, enquanto o comércio de carros cresceu em São Paulo 2,3 vezes a menos do que a média nacional, no Ceará, por exemplo, o crescimento foi 1,7 a mais.

Mas alguém teve o estalo de acrescentar ao relato dessa tendência uma sacada sobre os seus efeitos. Daí resultou a matéria “Trânsito caótico pode chegar a outras cidades”, sobre a propagação da principal doença crônica das metrópoles brasileiras (para voltar à metáfora que abre esta nota).

A matéria flui porque se baseia em declarações de um dos maiores especialistas no setor, o ex-secretário de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, Cláudio de Senna Frederico.

“É só uma questão de tempo e de renda”, diz ele, sobre a disseminação dos engarrafamentos paulistanos, que há pouco alcançaram o recorde de 293 quilômetros de lentidão, num começo de noite.

O ponto forte da previsão é que, até onde a vista alcança, as pessoas continuarão preferindo o transporte individual apesar do imenso tempo desperdiçado nos engarrafamentos. O entrevistado vai além. Quanto menos carros existem numa localidade, raciocina, maior será o ganho de posição social dos que conseguirem comprar o seu. Aí a procura de conforto é reforçada pela busca de status, diferenciação.

“Do ponto de vista urbanístico”, reflete Frederico, “é um terror, mas esse estilo de vida é considerado uma conquista”.

Reparem que não se está falando de nenhuma proeza jornalística, mas de uma pequena diferença que um jornal pode fazer na abordagem de um grande assunto. Chama-se a atenção para o que de outro modo seria uma obviedade porque a imprensa brasileira deixa passar entre os dedos, com uma frequência injustificada, oportunidades corriqueiras de alargar a sua pauta informativa. É esse o jogo que terá de jogar cada vez mais – para não ser derrotada no próprio campo.

CENSURA TOGADA


O silêncio de Gilmar

Por Alberto Dines em 4/8/2009

O paladino da liberdade de expressão, o ministro Gilmar Mendes, preferiu não se manifestar na segunda-feira (3/8) a respeito da decisão do desembargador Dácio Vieira de proibir o Estado de S.Paulo de continuar a veiculação de informações sobre a Operação Boi Barrica que enredou o filho do senador José Sarney e gerenciador dos seus negócios.
O ministro tinha um bom pretexto: na condição de presidente do Conselho Nacional de Justiça, deveria comandar a solenidade de recepção dos novos conselheiros. Contrariando os seus hábitos, foi extremamente comedido: saudou protocolarmente os novos conselheiros, anunciou em termos sucintos as metas do CNJ e louvou o planejamento estratégico "como instrumento indispensável à administração da justiça".
O processo político em frangalhos, o Legislativo achincalhado pelo fisiologismo, o Estado de Direito ameaçado por magistrados ineptos e o presidente da suprema corte adota a postura de um CEO preocupado com a administração dos seus negócios, esquecido dos valores que estão sendo destroçados.
Irrelevâncias, modismos
A censura togada mostra, mais uma vez, que veio para ficar. Um quarto de século depois da redemocratização voltamos ao vale-tudo. Desta vez expresso em juridiquês. Os senadores Fernando Collor e Renan Calheiros, igualmente acusados de improbidade, são proprietários de currais midiáticos em Alagoas, o estado que dividiram entre si. E, no entanto, não pouparam ataques à mídia na vergonhosa sessão de reabertura dos trabalhos legislativos. Como se a imprensa fosse culpada pelos vexames produzidos na Cidadela da Devassidão, também chamada de Senado.
O senador José Sarney declara que em sua longa carreira política jamais processou um jornalista e, em seguida, lê uma nota em que designa o trabalho jornalístico do Estadão como "infamante campanha". Tenta demarcar-se da ação patrocinada pelo filho, o empresário de mídia Fernando Sarney, e, ao mesmo tempo, endossa o ato censório promulgado por um magistrado ligado ao seu clã.
A República vive um de seus piores momentos – a única instituição capaz de salvá-la é a imprensa. Só ela é capaz de despertar a sociedade diante das emergências. Ao mesmo tempo em que distrai o cidadão com a enxurrada de irrelevâncias e modismos, também é capaz de embargar esta avalanche de hipocrisia e cinismo.
Coluna semanal
A censura ao Estado de S.Paulo foi anunciada na sexta-feira (31/7), véspera do vácuo do fim de semana. O jornal agredido protestou com veemência na segunda (3/8), em editorial (ver "
Afronta à democracia"). O Globo e Folha de S.Paulo preferiram esperar, não querem valorizar o competidor.
O triunvirato de jornalões sabe irmanar-se em questões monetárias ou quando investe contra os moinhos de vento da regulamentação. Foi uníssono na liquidação da exigência do diploma e da especificidade do ofício jornalístico, mas não consegue marchar unido em defesa da democracia. Ao recusar a imediata solidariedade a um concorrente revela o seu lado menos nobre, mais corporativo e oportunista.
Neste mesmo triunvirato o papel pior está sendo desempenhado pela Folha. É doloroso perceber que o jornal que em apenas 34 anos tornou-se o mais influente do país sem recorrer a espalhafatosas reformas, apoiado apenas em suas páginas de opinião, em seis meses entregou os pontos. A manutenção da coluna semanal de José Sarney confronta o seu garbo e a sua intransigência em favor do jornalismo independente, livre de compromissos políticos, de rabo preso no leitor.
Haraquiri coletivo
Na sexta-feira (31/7), a Folha foi novamente pisoteada por Sarney ao publicar – pela primeira vez nesta crise – um artigo claramente parcial, demagógico, impertinente, hostil à imprensa e ao clamor da sociedade. O libertário Sarney investiu contra a empresa que edita a Folha de S.Paulo, contra o jornal onde se abriga, contra seus colegas de página e contra os leitores que abominam a sua hipocrisia. Trechos:
** "Hoje com a sociedade de comunicação, os princípios da guerra aplicados à política são mais devastadores do que a guilhotina da praça da Concorde. O adversário deve ser morto pela tortura moral..."
** "Como julgar uma democracia em que não se tem uma lei de responsabilidade da mídia, nem direito de resposta, diante deste tsunami avassalador da internet e enquanto a Justiça anda a passos de cágado? Como ficam os direitos individuais, a proteção à privacidade, o respeito à pessoa humana?"
Impossível ignorar a óbvia existência de um pacto entre o jornal e o seu colunista: ele manteria a sua coluna desde que não a usasse para defender os seus interesses pessoais ou políticos. O pacto funcionou desde o início de fevereiro até a sexta-feira, 31/7.
O político amapo-maranhense, mais uma vez, passou a perna no parceiro, não cumpriu a palavra: usou o jornal para satanizar a imprensa e para vitimizar-se. A esta altura, Sarney faz com a Folha o que bem entende. Acreditou na campanha de assinaturas do jornal pela TV e acha que todos são moscas.
Neste haraquiri coletivo, às vésperas dos 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial, conviria parafrasear Winston Churchill: "Nunca tantos se imolaram tanto por tão pouco".

Caso Sarney

A guerra suja no Senado

Por Luciano Martins Costa em 4/8/2009

Comentário para o programa radiofônico do OI, 4/7/2009

O noticiário político de terça-feira (4/8) não surpreende quem ouviu rádio, assistiu aos telejornais ou acessou os noticiários online na segunda-feira à noite. Mas haveremos de convir que a reprodução do bate-boca que se desenrolou no Senado Federal traz um sabor especial ao leitor. Afinal, aquilo que se esperava pudesse ser o funeral da carreira política de José Sarney acabou se revelando a ressurreição de Fernando Collor e a reedição de histórias de mais de duas décadas atrás, quando Tancredo Neves se lançou candidato à presidência da República.
Por cima de tudo, fica a sensação de que a atual crise no Senado é apenas a nova versão de uma velha guerra suja. E que em política nada se cria e nada se renova.
Quando o senador Pedro Simon, que sobrevive no PMDB do Rio Grande do Sul, subiu à tribuna, muitos repórteres viram confirmada a pauta de suas redações, que esperavam o discurso que poderia representar o começo do fim para José Sarney.
Depois de um recesso no qual mal conseguiu respirar, tantas as acusações que lhe foram feitas através da imprensa, esperava-se que o presidente do Senado não tivesse mais forças para resistir e que, finalmente, aceitasse as recomendações para deixar o cargo e salvar o mandato. Mas a tropa de choque entrou em campo e o que se viu foi a guerra aberta.
Fonte de manchetes
O episódio surpreende porque, há dias, editoriais e comentários da imprensa vêm afirmando que José Sarney volta do recesso mais fragilizado do que há um mês. Na véspera, todos os grandes jornais afirmavam que Sarney havia sido convencido a renunciar à presidência do Senado.
Pode ser que a imprensa tenha levado em conta apenas o que publica, e não o que se esconde nos bastidores. Tampouco parece ter dado crédito à opinião dos advogados contratados por Sarney, que consideram relativamente fácil contestar todas as onze acusações encaminhadas ao Conselho de Ética.
Pelo que foi insinuado na tribuna, o punhado de dossiês com que a tropa de choque do presidente do Senado ameaça seus adversários é outra fonte de boas manchetes. Se os jornais estiverem interessados, é claro.
As voltas da História
O retorno de Fernando Collor ao primeiro plano da cena política é outro fato digno de registro. Ele mesmo fez questão de relembrar que foi personagem central de um grande escândalo e da mais longa e penosa escaramuça pelo poder da República desde o processo de redemocratização. Caiu, amargou o ostracismo por oito anos, mas não foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal.
As acusações que mobilizaram os jovens na época e produziram as manifestações pelo impeachment não resistiram à prova da corte, e agora Collor retorna para defender o antigo desafeto, produzindo uma situação inusitada. Afinal, ele foi inventado pela imprensa para evitar que o sindicalista Lula da Silva chegasse ao poder em 1989.
É fato notório que a candidatura de Fernando Collor à presidência da República, na ocasião, foi alimentada por uma série de reportagens na TV Globo, que o apresentavam como o "caçador de marajás" e o paladino contra a corrupção. Depois, ele foi sacramentado por uma "consulta" armada pelo jornal O Estado de S.Paulo no Viaduto do Chá, no centro da capital paulista, da qual o então governador de Alagoas emergiu ungido em "popularidade".
Agora que volta ao centro do palco, anunciando sua disposição de revirar os baús para atacar os inimigos de Sarney, Collor pode se tornar uma pedra incômoda nos sapatos de algumas figuras da imprensa que o ajudaram a se eleger há vinte anos. Não será surpresa se aproveitar a atual crise política para se colocar em condições de disputar novamente a presidência da República.
Quem viver, verá.
***
Em busca dos jovens
O Observatório da Imprensa na TV vai mostrar como os jornais e revistas brasileiros estão tentando falar com o público jovem. São cada vez mais comuns os cadernos e títulos de papel voltados para a faixa etária dos 13 aos 20 anos, mas esse público demonstra maior preferência pelos meios digitais de comunicação.
O Observatório da Imprensa vai ao ar nesta terça-feira (4/8) às 22h40, ao vivo, pela TV Brasil. Pela Net, canais 4 (SP), 16 (DF), 18 (RJ e MA); pela Sky-Direct TV, canal 116; pela TVA digital, canal 181.